Grande parte das pessoas que passam pelas nossas vidas são perfeitamente dispensáveis. Outras, são aquelas que assemelham-se às peças de roupa: rasgam, encolhem, descolorem, tornam-se enjoativas e, por fim, não nos servem mais.
As pessoas dispensáveis são aquelas que não se destacam entre a multidão. São aquelas que surgem por um curto período de tempo e desaparecem sem nós nos darmos conta.
As outras, são aquelas que surgiram, ficaram e, por diversas razões, foram desaparecendo do nosso quotidiano. Desapareceram do quotidiano mas não de nós.
São aquelas pessoas que ficaram, mesmo indo. Tenho pensado nelas nestes últimos tempos. Observado minuciosamente os vestígios que deixaram em mim; me indagado o porquê de terem descolorido e, principalmente, a razão de eu nada ter feito para que as suas cores não se desbotassem.
Talvez tenham sido os meus olhos a perderem a cor. Talvez eles se tenham desbotado perante o arco-íris das auras. Talvez as pessoas tenham permanecido intactas e imóveis, e eu é que tenha ido embora. Que tenha rasgado e encolhido. Talvez.
Frequentemente, um dos nossos maiores problemas é o de darmos as pessoas como garantidas. Não devíamos, até porque
nós não somos a garantia de nada. Mas damos, porque sentimos a necessidade de possuirmos algo. Precisamos de garantias, de certezas, de perpetuidades. Precisamos mostrar a nós mesmos que somos capazes de ter alguém
para sempre. Mas o que é o para sempre senão uma fracção de segundos? O quê é o eterno perante uma eternidade esgotável, limitada naquele pequeno espaço de tempo que julgamos ser imortal? Se fôssemos eternos, duraríamos por quanto tempo?
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| pearl_piper |
Exigimos dos outros aquilo que não encontramos, ou até desistimos de encontrar, em nós. Exigimos que os outros partilhem connosco o melhor que existe dentro deles, e ainda assim, muitas vezes, não é o suficiente para que as cores não se desbotem.
Mas o que é que nós nos exigimos perante o outro e, principalmente, diante de nós mesmos? Que esforço fazemos para não perdermos o outro de vista? Não é difícil nos acomodarmos, cruzarmos os braços justamente por estarmos
convictos de que aquilo que a vida nos oferece é nosso. Não é incomum tornarmo-nos sedentários e ignorarmos a arte de valorizar o próximo, até porque a sociedade tem evidenciado a sua desvalorização através de seus falsos valores e atitudes.
O que a vida oferece é um determinado número de oportunidades que, não sendo aproveitadas, desaparecem.
Nada é nosso. Nós nos pertencemos até um determinado ponto e, ainda assim, não é uma raridade não assumirmos tamanha responsabilidade. As pessoas vão porque quem permanece sem elas não possui a arte de fazê-las ficar. No fundo, sou grata por nada durar para sempre, pois a nossa eternidade implicaria a perpetuidade daquilo que hoje somos. Não é raro tornar-se raro encontrar alguém que saiba (con)viver consigo mesmo durante toda a sua vida, sem se perder, sem desbotar, sem que os seus olhos se tornem opacos diante do seu reflexo. Uma coisa é certa: as pessoas que ficam, são aquelas que estão indo. Fiquemos nós, então, indo com elas. Na eternidade ou não,
não desenlacemos as mãos.
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