Talvez por estar na primavera da vida, no auge da minha juventude, numa idade em que, supostamente, tudo posso e tudo conseguirei, tenha pensado tanto na velhice. Talvez por saber que o meu corpo é mais jovem do que a minha alma, tenha vindo a dar mais atenção ao lado espiritual da vida. Não sei, talvez por ser alguém extremamente consciente da passagem do tempo, sinta medo dele. De não aproveitá-lo como é suposto ser. Ao mesmo tempo em que desejo que ele pare, quero que ele avance o mais rapidamente possível. Quero que o tempo passe, ficando. Desejo que, dentro de mim, os mortos renasçam. Não me importo de me tornar num cemitério de lápides frias. Almejo que os caixões se abram para que eu possa, finalmente, abraçar aqueles a quem a vida não deu outra hipótese, senão a morte.
Não são raras as vezes em que precisamos morrer para sabermos que estamos vivos. Às vezes, me pergunto quantas vezes fui cadáver dentro de alguém. Em quantas lápides escreveram o meu nome. Quais foram os epitáfios inventados em minha homenagem. Quem esteve presente nos meus enterros. Às vezes, paro para me perguntar qual é a minha percentagem de vida perante a iminência da morte. Se tenho algum número pincelado na testa. Se sim, quantos me restam.
Não tenho medo de morrer. Sofro é com a minha impotência perante a morte de quem estimo. Nada mudaria na minha vida para além de preencher os dias vazios, perdidos, desperdiçados. Se pudesse, tornaria a sofrer pelas mesmas razões, pois o sofrimento é uma daquelas poucas coisas que são realmente nossas. Ninguém sofre o nosso sofrimento. Ninguém sente a nossa dor. Ninguém é capaz de avaliar se sofremos pouco ou muito, para além de nós mesmos.
Das nossas dores restam as chagas, e elas servem para nos lembrarmos de não esquecermos as dores que nossa alma sentiu. E eu acho isso extremamente importante. Devemos lembrar dos momentos felizes, mas sem esquecer dos nossos pesares. Devemos comemorar a nossa vitória, mas sem esquecer os caminhos tortuosos pelos quais nos perdemos. Devemos nos orgulhar de nós mesmos, mas sendo humildes. Devemos nos lembrar sempre que o sofrimento não é castigo nem punição, mas um meio.
Sempre achei o Outono a estação mais bonita do ano. Aquela que me traz uma sensação de sossego e aconchego que as outras estações não me proporcionam. As folhas secas darão lugar à outras verdes, amarelas, plenas. E é exatamente isso que acontece conosco. O Outono representa a velhice, o amadurecimento, o tempo, a experiência. Admiráveis são aqueles que passam por todas as suas estações existenciais. Aqueles que enfrentam suas tempestades sem se deixarem submergir. Os que não se cortam em seus espinhos, e os que não se congelam entre os mantos de neve que, por sua vez, se derretem ao aproximar do verão.
Admiráveis os que sobrevivem após a morte e, desafiando as leis do tempo, permanecem intactos no nosso coração. Quero que os caixões se abram dentro de mim.



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